OPINIÃO | A Maçã Envenenada de Michel Laub

30 de abr de 2015


Título: A Maçã Envenenada
Autor: Michel Laub
Páginas: 120
Editora: Companhia das Letras


Em 1993, o grupo norte-americano Nirvana fez uma única e célebre apresentação no estádio do Morumbi, em São Paulo. Um estudante de dezoito anos, guitarrista de uma banda de rock e cumprindo o serviço militar em Porto Alegre, precisa decidir se foge do quartel - o que o levaria à prisão - para assistir ao show ao lado da primeira namorada. A escolha ganha ressonâncias inesperadas à luz de fatos das décadas seguintes. Um deles é o suicídio de Kurt Cobain, líder do Nirvana, que chocou o mundo em 1994. Outro é o genocídio de Ruanda, iniciado quase ao mesmo tempo e aqui visto sob o ponto de vista de uma garota, Immaculée Ilibagiza, que escapou da morte ao passar 90 dias escondida num banheiro com outras seis mulheres.


Olá, pessoas! Aqui é a Andréa e vim trazer um livro bem diferente para vocês hoje, e escrito por um cara que entra fácil na minha lista de favoritos. Em tempos de divulgação do documentário Kurt Cobain: Montage of Heck (você pode conferir o trailer aqui), resolvi trazer algo que falasse um pouco dessa banda e de seu vocalista inesquecível. É bom que eu avise a vocês que esse livro é o segundo de uma trilogia que não tem ligação direta entre si. É uma trilogia (que ainda não tem o 3º livro lançado) porque conta sobre os efeitos individuais de catástrofes históricas em cada década, sendo o primeiro o livro “Diário da queda” que se passa nos anos 1980 e esse que se passa nos anos 1990. Mas não precisa entrar em pânico, você não precisa da leitura de um para entender o outro. 




Kurt Cobain e o Nirvana são apenas um fio da história. Outro fio importante é Immaculée Ilibagiza - que sim, é uma pessoa real tão quanto Kurt Cobain - e o genocídio de Ruanda, que foi um episódio horroroso de carnificina entre dois diferentes grupos étnicos de Ruanda (qualquer curiosidade sobre é só jogar no Google e tem também o filme Hotel Ruanda, que tem completo no Youtube). Essas duas pontas de diferentes fios acabam se cruzando na vida de um estudante brasileiro que presta serviço militar. Não é mencionado seu nome durante a história e é ele que nos conta, através de tópicos, o que aconteceu em sua vida e como esses dois eventos históricos interferiram de alguma maneira na sua jornada.

“A guerra em Ruanda iniciou um dia depois da data oficial da morte de Kurt Cobain. Nessa época eu morava em Londres. Meu trabalho era fazer sanduíches numa lanchonete: eu enchia uma sexta com eles, completava com refrigerantes e salgados, bolos e chocolates, para vender nos escritórios de Covent Garden. Eu não via TV, não comprava jornais, metade das revistas nas bancas era escrita em alfabeto árabe ou estava dentro de sacos plásticos. O dinheiro que sobrava do aluguel, transporte, comida e demais despesas eu gastava em publicações sobre música.” (p. 17).

Esse livro já começa diferente por sua estrutura narrativa: é uma história dividida em 3 partes que é contada em tópicos numerados. Achei uma maneira super diferente e fora do padrão de narrativas que a gente conhece, e que faz com que a leitura seja bem rápida e fluida, apesar da história ser bem pesada. A história vai e vem no tempo, não é contada de forma linear, o que dá um certo caráter de testemunho ao que o nosso protagonista está nos contando. Não temos detalhes minuciosos dos eventos, tanto do suicídio de Kurt Cobain quanto da história de Immaculée Ilibagiza, o narrador prefere tratar desses temas abordando-os pelo viés das experiências pessoais e dos sentimentos. Achei uma escolha acertada.

Quanto aos personagens são todos extremamente fascinantes. Tudo gira em torno da história pessoal do nosso narrador sem nome, vemos tudo a partir do seu ponto de vista. Ele conta a história já mais velho, bem depois dos acontecimentos. Sua primeira namorada, Valéria, já sabemos que é cilada desde o começo. Logo quando ela aparece, pelo jeito dela se comportar, já fica claro que é um problema, e dos grandes. Unha, que é amigo do nosso protagonista, já é mais um acessório aqui. Ele aparece vez por outra e tenho minhas sérias dúvidas se esse cara realmente foi amigo de verdade alguma vez. E claro, as imagens de Kurt Cobain e Immaculée Ilibagiza, que são interessantíssimas por si só e que sempre tem algum link no que o narrador está contando. 


“A descoberta foi a prova de que ser poupado não é o mesmo que ser salvo, e há mais a fazer do que lamentar o horror gratuito, o ciclo que do nascimento à morte nos bota numa prova de dor e aceitação.” (p. 44).



Sei que pode parecer estranho e eu já disse isso lá no comecinho, mas não é necessário ler o primeiro livro da trilogia para ler esse daqui. São histórias singulares, que são independentes entre si. O primeiro gira em torno do Holocausto e como isso afetou um menino judeu nos anos 1980, neto de um homem que sobreviveu ao campo de concentração. Só por aí você vê que os livros de Laub – pelo menos os dois que eu já li – não são levinhos. No final deles você sempre sai com a sensação de que tomou um soco na cara, um chute no estômago. O “Diário da queda” tem um final até que esperançoso, mas uma aura extremamente dolorida, principalmente por tratar de como o Holocausto afetou e ainda afeta a vida de algumas pessoas. Nesse aqui, o final é mais pesado, e durante toda a leitura temos a sensação de que algo catastrófico vai acontecer. São livros que te destroem, que te mostram que a vida não é nada bonitinha.

Dito tudo isso, recomendo o livro para quem não se importa em sair de uma leitura todo em pedaços. É um livro curto, direto e que vai afetar sim sua visão de algumas coisas. Vai ter pontos do livro que você vai parar a leitura para refletir sobre o que acabou de ser contado. Não se sai indiferente dessa história. Então se você procura alguma leitura para diversão, acho melhor evitar esse livro. Mas vale muito a pena encarar todo o pessimismo que cerca a obra e mergulhar nessas histórias que são cercadas de catástrofes e tragédias. 

Abraços e até a próxima.

6 comentários:

  1. Oi! Me pareceu uma leitura complexa, mas me interessei, parabéns pela resenha, acho que tu conseguiu expor tudo que a obra tem a proporcionar instigando a curiosidade do leitor.

    Aliás, adorei seu cantinho e já estou seguindo, o conheci através de uma promoção ^^ Sinta se a vontade de conhecer o meu cantinho também!

    Beijos,
    Joi Cardoso
    Estante Diagonal

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    1. Olá, Joi!
      Para ser bem sincera, acho que a leitura é mais pesada do que complexa. Michel Laub é desses que consegue acabar com suas estruturas, mas tem uma linguagem bem fácil e fluida. Tudo depende se você está no clima para ler uma história mais pesada. Obrigada pelo elogio. Espero continuar sempre melhorando, e que mais pessoas gostem desse espaço que a Gabriela mantém com tanto carinho.

      Darei uma olhadinha sim :)

      Abraços.

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  2. Oie Andréa! :D
    Ainda não conhecia o autor e nem os livros dele, mas fiquei bastante curiosa para ler esse livro dele e o anterior também, justamente por tratarem de dois assuntos que eu tenho interesse em saber mais.
    No momento estou lendo livros mais leves mas esses já estão na minhs lista de futuras leituras. É bom ler um livro que te derrube as vezes e faça você pensar na nossa realidade.

    Beijos e até logo! ;)
    https://worldofmakebelieveblog.wordpress.com/

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    1. Oi, Amanda :)
      Eu conheci faz pouco tempo também, graças a uma professora que usou o "Diário da queda" num laboratório. Achei tão bom que fui atrás para saber mais. Ainda só li esses dois, mas pretendo ler todos. Sim, é sempre muito bom ler alguma coisa que desafie a gente, que incomode, que nos provoque de alguma forma. Espero que goste.

      Abraços.

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  3. Gente, onde encontro esse livro?

    Esse ano comecei a sair mais da minha zona de conforto e ir mais pra zona de confronto, e esse livro será ótimo pra continuar com esse projeto pessoal. Nunca li uma livro nesse gênero e achei super interessante, mesmo sendo um pouco confuso e pesado, a leitura me cairia bem, só espero que não me deixe com ressaca.

    Ótima indicação, beijos.

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    1. Olá, Vinicius :)
      Achei na internet mesmo, sites tipo o submarino e saraiva. Não achei tão caro na época que comprei, mas qualquer coisa é só esperar ter promoção.
      Esse livro é excelente para começar a aprofundar as leituras, os temas são pesados, mas a leitura é bem rápida, então acho que não dá ressaca não. Espero que aproveite a leitura e que dê prosseguimento ao seu projeto, é sempre muito bom sair da nossa zona de conforto, faz a gente conhecer coisas maravilhosas.

      Abraços.

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